sábado, 22 de março de 2014

ENTIDADES PARA AS QUAIS É ADEQUADO O USO DO PLANEJAMENTO PARTICIPATIVO

 
Tem sido estimulante observar as discussões que, no seio das entidades de cunho eminentemente social, acontecem sobre planejamento. Mais interessante, ainda, é participar destes debates.
 As duas décadas finais do século vinte foram extremamente importantes para que o planejamento se consagrasse como ferramenta para impulsionar, organizar, esclarecer... a ação das entidades; mais do que isto: foram, nesse período, desenvolvidas ferramentas adequadas a diversas categorias do fazer humano. Assim, quatro correntes (linhas teóricas) apresentam quatro diferentes propostas sobre como planejar, não para competirem entre si, mas para servirem a diferentes necessidades, conforme a natureza da entidade que planeja. Embora aqui só interessem duas destas correntes, cito as quatro e remeto o leitor para www.curriculosemfronteiras.org, para ver um artigo meu no número 1 da revista virtual que lá vai encontrar, ou para o meu recente livro "Soluções de Planejamento para uma Prática Estratégica e Participativa" - Editora Vozes; em qualquer dessas fontes encontram-se explicações sobre cada uma delas. São elas, com as inadequações de nomes já indicadas algumas vezes: Planejamento para a solução de Problemas, Gerenciamento da Qualidade Total, Planejamento Estratégico e Planejamento Participativo.
Como nos últimos tempos os técnicos que assessoram empresários e governantes falam muito do que é estratégico, há um repetição quase sufocante de nomeação do Planejamento Estratégico sem que saibam direito o que isso seja. Assim, muitas vezes, mesmo os que falam nele a todo tempo, não têm capacitação para utilizar aquilo que, teoricamente, é proposto como modelos, técnicas e instrumentos; limitam-se a estabelecer, de modo pobre, a missão e a visão e não alcançam entrar no significado globalizado do que é proposto como forma concreta de planejar.
O pior é que muitos administradores de entidades cujo primeiro fim não é ganhar dinheiro ou manter-se firme no mercado - o Planejamento Estratégico foi desenvolvido para isto - caem no senso comum e, sem pensar e sem utilizá-lo adequadamente, dizem que estão usando o Planejamento Estratégico. 
O Planejamento Participativo desenvolveu-se para as entidades cujo primeiro fim é servir à sociedade, ajudando-a a construir-se e a reconstruir-se, dentro de hierarquias de valores construídas pelas próprias populações.
Cito as entidades que me parecem pertencer a esta categoria – e, portanto, candidatas ao uso do Planejamento Participativo – sem dar-lhes qualquer ordem de maior ou menor importância.
·         Governos centrais e seus ministérios e secretarias, certos departamentos e organismos que não sejam meramente operacionais; do mesmo modo, estados e municípios.
·         Associações e movimentos da sociedade civil, dos mais diversos tipos.
·         Partidos políticos.
·         Escolas de ensino básico, sobretudo as governamentais e as particulares sem fins lucrativos.
·         Universidades públicas e todas as particulares sem fins lucrativos.
·         Sindicatos.
·         Igrejas e paróquias das diversas religiões, dioceses, departamentos religiosos.
·         Províncias, congregações e ordens religiosas, bem como grupos religiosos de qualquer tipo e religião ou parte deles.
·         ONGs, OSCIPs ou similares.
·         Grupos para as mais diversas finalidades que queiram dar um sentido a suas ações sociais.
·         Alguma empresa (agrícola, industrial, comercial, de serviços...) cujos diretores desejem aumentar a participação de seus funcionários e de todas as pessoas que tiverem com ela contato, para o bem destes funcionários e destas pessoas e das comunidades às quais pertencerem.
Nessa relação podem, talvez, caber outras entidades. O critério geral é este: entidades cujos fins incluam contribuir para a construção das pessoas e da sociedade. Há uma linha divisória clara que nos permite separar as instituições, os grupos, os movimentos, os organismos e outras entidades em dois tipos: as que se empenham em ganhar dinheiro, sendo as tarefas sociais modos de aumentar a lucratividade e a permanência no mercado, e as que pensam, primeiramente ou de qualquer outro modo importante, em contribuir com a felicidade das pessoas e com a (re)construção da sociedade na linha que escolherem. O Planejamento Participativo serve a esta segunda categoria de entidades.
 


 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

COMEÇA (JÁ COMEÇOU) O ANO LETIVO DO ENSINO BÁSICO

As aulas no ensino básico recomeçam. E o que parece? Que as autoridades educacionais querem que sejamos pilotos de livro didático, passando, a nossos alunos, "conhecimentos" que os adultos não sabem. O professor de Inglês não sabe Matemática, Inglês ninguém sabe, o professor de Matemática não sabe Geografia, este não sabe nada de Física, o de Física não pensa que a Arte tenha importância et ita porro. A vida se esvai, a civilização declina. Quando será que um ministro vai estabelecer um só professor por turma de alunos, encerrar o Programa do Livro Didático e substituí-lo por um Programa de Apoio à Escola, oferecendo-lhe jornais, revistas, vídeos, filmes, intercâmbio com a população, atividade e participação dos alunos, internet, tablets para os alunos, rádios, tvs, muitos livros... e firmar o ensino por projetos, estudando temas, não disciplinas, como é próprio nesta idade?

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

PLANO NACIONAL DE EDUCAÇÃO


 

            São inúmeros os palpites sobre os motivos dos maus resultados da educação brasileira. Os principais referem-se à falta de dinheiro, a professores mal preparados e mal pagos, ao excesso de disciplinas, às instalações deterioradas.

            Espero que agora fique mais claro: a educação básica brasileira vai mal por falta de ideias para a construção de um currículo e por falta de planejamento.

            Nosso Plano Decenal de Educação, para entrar em vigor em primeiro de janeiro de 2011, é “aprovado” no final de 2013, após ser submetido a um grande debate que nada tem a ver com planejamento. Que concepção de planejamento têm nossos parlamentares e nossas “autoridades” educacionais?

            Na verdade, não há plano. Um plano de médio ou de longo prazo em qualquer campo social, precisa ter quatro partes muito claramente definidas: a. um levantamento dos grandes problemas e desafios da realidade, sem que isso se constitua num diagnóstico, permanecendo como a fala de um paciente dizendo ao médico o que ele sente; b. um referencial, isto quer dizer, um conjunto de ideias que deixem claro nosso querer e nossas fundamentações do que queremos, frente aos desafios levantados; em duas dimensões: que sociedade queremos ajudar a construir e como queremos que seja, idealmente, o nosso campo de ação (no caso, a educação e a escola); c. um diagnóstico, cientificamente construído, realizando uma comparação entre a prática e os resultados que estamos obtendo com o que definimos em nosso referencial, definindo, assim, as necessidades que aquele campo de ação tem, no momento; d. uma programação da prática para o tempo do plano, definindo ações, rotinas, atitudes e regras para aquele período, visando a transformar a realidade para torná-la mais próxima do ideal que para ela traçamos. Ora, este “plano” não tem nada disto, resumindo-se a um conjunto de desejos; ao terminar o tempo do plano farão uma avaliação e se alegrarão porque algumas das “metas” foram, em parte, “realizadas” e se desculparão pelo que não aconteceu. É como se um cidadão estabelecesse que, até 2020, tem a “meta” de ser milionário e nem tivesse ideia sobre o que vai fazer e como vai se comportar para que isto aconteça.

            Muitos caminhos se abrem para quem sabe para onde quer ir; não há saídas para quem se propõe caminhar sem rumo. Não há possibilidade de construir um currículo cheio de realidade e de vida, como muitos pedem, sem um conjunto de ideias que seja encantador.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

CURRÍCULO E TRANSDISCIPLINARIDADE NA ESCOLA BÁSICA

(Publico mais alguns textos que publiquei, de tempos em tempos, no Facebook)
 
11.     Já que estou propondo um ensino transdisciplinar para a escola básica, onde o conteúdo não será preestabelecido, vale a pena perguntar se algo deveria ser prescrito para todos e, como a resposta parece ser “sim”, verificar que conteúdo seria este. É claro, por exemplo, que o ensino básico tem uma função alfabetizadora e que esta alfabetização deve alargar-se para muitas outras esferas além da linguística. Precisa ter a dimensão científica (com clareza sobre o método científico e a pesquisa), religiosa, geográfica, política, econômica, artística (literária, cinematográfica, musical, de pintura, de escultura), histórica, matemática, do trabalho, do direito... Estas coisas não devem ser estudadas como disciplinas. O uso de projetos de estudo que fiquem dentro de uma área, sem ser trabalhada como disciplina, parece prudente, pelo menos no começo do ensino fundamental; antes de tudo, talvez unicamente, a linguagem; mas, cada vez mais, o estudo seria desencadeado com projetos de estudo que abarcassem, a partir da base da alfabetização, questões em duas grandes dimensões: a natureza, por um lado, e a sociedade e a cultura, por outro. Teríamos, então, grupos de alunos estudando, por exemplo, os peixes, a proliferação de pragas, as eleições, o lixo, as aves, os dinossauros, a remuneração de vereadores, os gastos do País em saúde, os direitos das minorias, a democracia, o salário mínimo... sem que estes temas estivessem ligados a uma disciplina. Parece importante assinalar que, depois da alfabetização, não é necessário que todos os alunos estudem os mesmos temas; mais do que isto: que os professores não podem ser especialistas em alguma disciplina, mas do tipo que chamamos de pessoas cultas. Sobre forma de trabalhar nos projetos e sobre professores, incluindo a presença de especialistas, falarei adiante.
12.     Incluo aqui, na ordem ou fora dela, um comentário a uma pergunta muito pertinente da Professora Pâmela Filipini. Ela pergunta: “O que pensas da organização seriada dentro do nosso sistema de ensino”?
  1. Embora fosse falar disto só mais adiante, é oportuno dizer, desde logo: séries não têm nada a ver com um ensino transdisciplinar, onde não haverá um conteúdo com crescentes dificuldades, mas estudos direcionados a um fim, o de abertura ao crescimento contínuo em saber, em ser, em conviver. A seriação foi inventads no século dezoito, a partir da industrialização que propunha a produção em série; no século dezenove ela se firma de tal modo que passamos a ter a ilusão de que este é o único modo de fazer escola. Infelizmente, na educação escolar temos o dom de estragar as boas ideias que surgem: os ciclos por idade foram desvirtuados e eram, certamente, um passo rumo a uma escola que ajudasse crianças e adolescentes a crescerem até o limite de suas possibilidades. Embora não fosse ainda o ponto de chegada, a utilização de ciclos para constituir as turmas de estudo poderia nos levar, gradativamente, a ideia de ter grupos de alunos, reunidos conforme suas idades, trabalhando, orientados por um professor, como se estivessem apenas vivendo do modo que viveram quando aprenderam a caminhar, a sorrir e a falar. Obviamente teremos que conversar, mais adiante, sobre avaliação que não poderá ser de notas, de aprovação ou de reprovação, mas diagnóstica como pais e mães fazem quando seu filho está crescendo. Hoje as escolas já podem diminuir as desgraças da seriação através de uma nova visão sobre o que é importante para todos e sobre a reprovação.
13.     Precisamos uma escola, de nível superior, especializada em preparar professores. Falo aqui do que denominarei “professor de referência”. (Falarei, adiante, de professores especialistas que terão trabalho esporádico dentro da escola). O professor de referência será um profissional que coordenará os trabalhos de uma turma de alunos, de forma transdisciplinar. Será dele a responsabilidade de cuidar que os alunos trabalhem em todos os campos julgados necessários pelo referencial da escola. Conforme as circunstâncias e a conveniência, ele acompanhará ou não a mesma turma em dois ou mais anos seguidos.
Não basta preparar bacharéis – especialistas. Mesmo que se lhes dê uma tintura de Didática, na faculdade de educação, eles serão especialistas em alguma pequena faixa do saber humano e tentarão passar aquele saber aos alunos; mesmo que o façam de modo competente, estarão limitando os horizontes de crianças e de adolescentes. Não adianta pedir que trabalhem com interdisciplinaridade porque não saberão fazê-lo e a própria estrutura escolar não lhes permite isto. Nem sonham que, na educação geral, própria para todos, precisamos da transdisciplinaridade. Não terão conhecimentos suficientes em Psicologia, em Ética, em Meio Ambiente, em Sexualidade... e, sobretudo, não saberão de que se está falando quando se lhes disser que devem participar nos planos globais da escola e que devem elaborar seus próprios planos de sala de aula com intencionalidade, conhecimento da realidade dos alunos e programação clara e precisa. Indicarei linhas gerais desta preparação no número 14.
14.     Para o ensino básico transdisciplinar é necessária uma escola com a finalidade exclusiva de preparar professores. Digo, de início, o que é decisivo: todos terão a mesma formação, independentemente da idade de seus futuros alunos; como veremos, a prática deles vai ser diferente por causa das circunstâncias em que irão atuar e não por causa de teorizações distintas; ao planejamento (de que vou falar muito, mais adiante) caberá organizar a tensão entre a realidade desejada e a realidade existente; uma especialização para a alfabetização linguística talvez possa ser pensada; mas, consultando textos especializados no assunto, não me parece, agora, que isto seja necessário. Estas escolas terão quatro grandes linhas de estudo.
1.     O estudo do mundo da natureza e do mundo da cultura e da sociedade; sem especializações disciplinares, os futuros professores aprofundarão, ao máximo, sua relação com tudo o que os ajude a entender os fenômenos da natureza – tudo o que existe e acontece sem a intervenção humana – e o que lhes permita compreender os processos culturais e influir neles. Mesmo que nenhum conhecimento específico seja obrigatório, terão que ser homens e mulheres “cultos”, para quem nada do que é humano fique totalmente desconhecido. A vida é o conteúdo, tanto a que se relaciona com o mundo natural, como a que diz respeito ao artístico, ao ideológico, ao ético e moral, ao espiritual e religioso, ao sanitário, ao econômico, ao jurídico... nunca com especializações pontuais; elas até poderão acontecer, nos campos mais queridos de cada um e, por isto, mais estudados, mas nunca buscadas para todos nem para servir para “dar aulas”. Observe-se, desde logo e com toda a insistência possível: estas pessoas não estarão se dedicando com tanta seriedade a estes estudos para, depois, no seu trabalho, “transmitir conhecimentos” a seus alunos. Professores terão que dizer, muitas vezes: “Não sei bem isto! Se quiser(em), vamos investigar.” Eles e elas serão, sobretudo, coordenadores de estudo, isto é, orientadores, conselheiros e instigadores de suas futuras turmas. Vale a pena repetir a sabedoria de Paulo Freire: “Ninguém educa ninguém; ninguém se educa sozinho; todos nos educamos no relacionamento, mediatizados pelo mundo da natureza e da cultura”. No ensino médio, onde, provavelmente, se devesse pensar que cada aluno pudesse eleger campo do saber para ir aprofundando e se organizassem turmas respeitando estas escolhas, os mesmos professores e professoras seriam os coordenadores; não se trata mais de adultos que conhecem algum conteúdo e o passem às crianças e aos adolescentes, mas adultos especializados em ajudar pessoas a se educarem e a aprenderem. (Os outros campos de estudo – Planejamento; Pedagogia e Didática; Psicologia – serão analisados a seguir).
15.     Ainda duas observações sobre a formação de professores, no campo de estudos de que falávamos antes. A primeira é que, para implantar um processo de ensino transdisciplinar, não é preciso descartar os professores atuais. Na medida em que se vai passando, de série em série, do sistema atual para o novo sistema, os atuais professores receberão cursos para poderem desempenhar suas funções; além disto, como a implantação precisa ser gradativa, haverá tempo para que professores de disciplina assumam este novo perfil e, mais do que isto, talvez seja recomendável manter especialistas para ajudarem os professores de referência em algumas necessidades (veremos isto). A segunda é de que a preparação de professores, dentro deste campo de conhecimento sobre a natureza e sobre a cultura, deverá ser realizada com livros, jornais, revistas, rádios, televisão, filmes, vídeos, internet... e não com “aulas” do “professor”. Este professor de futuros professores será, também, um coordenador dos trabalhos e não alguém que sabe tudo e tem que transmitir o que sabe a outras pessoas; o conteúdo tem que ser completamente atualizado a cada tempo curto.
2.     O segundo campo de estudos, para a formação de professores, será o da Psicologia. Não poderá ser uma Psicologia apenas acadêmica; poder-se-ia dizer que não pode ser uma “psicologia pura”, mas uma psicologia que, mesmo firme teoricamente, seja aplicada ao campo da educação, da pedagogia e da didática. Oxalá o professor tenha, também, algum conhecimento psicanalítico; não para ser analista ou psicólogo terapeuta, mas para compreender minimamente os fenômenos que vai enfrentar em sua prática; poderá, com isto, encaminhar alguns de seus alunos de maneira melhor e, até, modificar seu trabalho em proveito de todos.
16.     O terceiro campo de estudo para o futuro professor – não estou usando uma ordem de importância – é o planejamento. O planejamento é uma ferramenta e, por isto, parece algo secundário; pouca gente – só especialistas – dá atenção aos pincéis e às outras ferramentas que serviram Da Vinci; contudo, elas foram de extrema importância: sem elas não teríamos algumas obras de arte fascinantes. O lavrador terá mais resultados à medida que tiver mais ideias sobre agricultura e à medida que tiver mais e, sobretudo, melhores ferramentas para cultivar a terra e para cuidar de suas culturas. Por mais que alguém fosse exímio conhecedor das lidas da terra, terá menos resultados se sua única ferramenta forem as mãos. Um professor, em seu trabalho pessoal com os alunos e, sobretudo, no seu trabalho coletivo para direcionar todo o esforço educativo da escola, precisa das ideias sobre educação e sobre pessoas, mas, também, da ferramenta que é o planejamento, com seus conceitos, seus modelos, suas técnicas e seus instrumentos. Não basta fazer bem as coisas que o senso comum pensa que a escola deve fazer; é preciso fazer as coisas certas, indicadas e decididas pelo trabalho coletivo. Quer dizer: não basta ter uma escola bonita que “passa” um conteúdo; é preciso definir resultados, por meio de uma visão estratégica e participativa, e persegui-los com ações, atitudes, regras e rotinas, programadas para um médio prazo. Este não pode ser um estudo de algumas horas; será necessário o estudo prolongado de, no mínimo, cem horas, a fim de alcançar o domínio de uma corrente de planejamento que permita segurança, clareza e precisão na prática.
17.     Por fim – a ordem é arbitrária – o outro campo de estudos é a Pedagogia e a Didática. Digamos que o Planejamento e a Pedagogia responderão às perguntas “o que (vou) vamos fazer” e, sobretudo, “para que (vou) vamos fazê-lo” e que o Planejamento e a Didática irão responder “como”, “com que”, “quando”... (vou) vamos fazê-lo. Assim, a Didática vai trabalhar a respeito do “fazer bem” aquilo que se tem de fazer e a Pedagogia, a respeito do “fazer as coisas certas”, ou seja, fazer aquilo que tem sentido e, sobretudo, aquilo que tem relevância social e pessoal. Planejamento, Pedagogia e Didática precisam estar sempre conectados, interligados, para abranger o médio e o curto prazo, o operacional e o político-social. Quase não se estuda mais Didática: preocupados com o tecnicismo, os professores de Didática fugiram do estudo de técnicas, instrumentos e processos necessários ao fazer pedagógico e se refugiaram em algumas críticas, algumas lições de Sociologia da Educação e outras questões afins; o planejamento estudado é aquela infame folhinha com “objetivos, conteúdos, procedimentos...” Mais: os pedagogos inventaram que o planejamento deve ser flexível e, com isto, de certo, querem dizer que a gente planeja e, depois, faz aquilo que tiver vontade ou puder. Na verdade, esta estória da flexibilidade foi inventada para convencer os professores a “planejarem”, pois, com isto, eram liberados para “fazer de conta”. Claro que há um contexto real nisto: é o fato da dolorosa consciência (talvez semiconsciência) dos educadores de que tudo já está planejado (decidido) e a única coisa que o professor pode fazer é incluir ou excluir algo na operacionalização. A Pedagogia e a Didática não podem ficar discutindo grandes pensamentos se não derem conta destas tarefas simples de rejuvenescer estes processos, para devolver (talvez possibilitar), ao professor, o tomar para si o planejamento social, político e operacional do fazer escolar.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

CURRÍCULO E TRANSDISCIPLINARIDADE NA ESCOLA BÁSICA


           

            Estou publicando, no facebook, algumas considerações concatenadas sobre o assunto. Público, aqui, as dez primeiras intervenções.

CURRÍCULO E TRANSDISCIPLINARIDADE NA ESCOLA BÁSICA

1.     Entre as muitas questões que a escola básica sugere, a mais importante é a do currículo. Qualquer mudança nele vai influenciar outras mudanças necessárias; sem transformações curriculares, as outras serão inteiramente inócuas. É urgente uma transformação curricular na direção da transdisciplinaridade. Causa preocupação e constrangimento ver, por exemplo, que o Conselho Nacional de Educação escreva que o ensino médio terá quatro grandes áreas e, depois, diga as disciplinas de cada área, voltando exatamente ao que hoje se faz. Penso que, apesar de os professores poderem, sozinhos, introduzir mudanças transdisciplinares, as autoridades têm mais do que a metade das responsabilidades pelo nossa tristeza escolar. que o ensino médio terá quatro grandes áreas e, depois, diga as disciplinas de cada área, voltando exatamente ao que hoje se faz. Penso que, apesar de os professores poderem, sozinhos, introduzir mudanças transdisciplinares, as autoridade têm mais do que a metade das responsabilidades pelo nossa tristeza escolar.que o ensino médio terá quatro grandes áreas e, depois, diga as disciplinas de cada área, voltando exatamente ao que hoje se faz. Penso que, apesar de os professores poderem, sozinhos, introduzir mudanças transdisciplinares, as autoridade têm mais do que a metade das responsabilidades pelo nossa tristeza escolar.(ver face de 02 junho)

2.     Muitos (autoridades e teóricos da educação, coordenadores...) falam de interdisciplinaridade e não enfrentam a questão da transdisciplinaridade. Constroem, assim, um estelionato pedagógico. Na última vez que consegui explicar isso direito, disseram-me os diretores: “Isto não pode ser feito”. Pareciam os fabricantes de carroças querendo evitar que se criasse o automóvel. A interdisciplinaridade, boa para a ação - como a dos médicos – é boa, também, para o ensino superior ou para qualquer ensino profissionalizante, onde a especialização que as disciplinas trazem é benvinda. No ensino básico, ela dará mais força às disciplinas, o que é profundamente nefasto. Por causa de alguns saberes – de resto mal formulados – os alunos perdem toda aquela amplidão de saber que construímos e seguimos construindo. A transdisciplinaridade ultrapassa as disciplinas e prpõe o trabalho com temas, sem o enfoque de nenhuma disciplina, mas com uso do método científico.

3.     Piso agora em terreno minado. De que valem os exercícios de raiz quadrada ou os estudos sobre logaritmos? Para que serve decorar as capitanias hereditárias ou o nome completo de Tiradentes? Que sabedoria é decorar a análise sintática sem ter o saber que ajude a formular frases com precisão e clareza?  De que me adianta conhecer, mais do que um médico, as partes da célula? O que fazer, no dia-a-dia, com a tabela periódica dos elementos ou com a dinâmica dos fluidos? E vejam a beleza de um grupo de alunos, orientados pelo seu professor, trabalhando sobre: - a distribuição de renda dentro do Estado, a variação de preços ou do salário mínimo, a beleza dos números à Malba Tahan – a busca da liberdade por pessoas e grupos, a existência de países no mundo: causas e consequências – a análise de dois jornais, estabelecendo comparações e escrevendo artigos para eles – as diversas funções exercidas por um corpo (sem decorar nada) – a chuva, o vento, as tempestades, o sol, os planetas... (Terei que seguir para sair deste buraco)

4.     Meu propósito é voltar depressa a falar na transdisciplinaridade. Mas preciso, antes, afirmar uns pontos que são fundamentais. Não se trata de fazer da escola um lugar de superficialidade. É preciso que se tenha clareza sobre o que se quer alcançar e, junto com isto, que se saiba caminhar na direção do que se quer. A escola terá que ser espaço onde as pessoas, talvez principalmente os alunos, busquem sua própria identidade e se apropriem de instrumentos para participar na sociedade. Isto significa trabalhar em três frentes: a dos valores, a das habilidades e a dos conhecimentos, estes resumidos em duas dimensões, a de conhecer, cada vez mais, a natureza e a de compreender melhor a sociedade e a cultura. Para isto é necessário um processo de planejamento que seja participativo e que seja ferramenta para propor um rumo, para analisar a prática à luz desse horizonte e para determinar o que se vai ser e o que se vai fazer para caminhar na direção de tal horizonte. (Estive no congresso do MOBREC em Santa Maria – RS e, por isso, esta reflexão demorou mais).

5.     Vejam como funcionaria a transdisciplinaridade total no ensino básico. (Apontarei, adiante, processos, já possíveis hoje, que não vivenciam a transdisciplinaridade total, mas que caminham para ela). A transdisciplinaridade supõe o cancelamento de qualquer disciplina, embora conteúdos disciplinares possam e devam, algumas vezes, ser trabalhados por pequenos períodos. Na prática, cada turma de alunos, preferentemente agrupados por idade, teria apenas um professor para ajudá-los a estudar questões da natureza e temas ligados à sociedade e à cultura, com a finalidade de que cada um busque sua própria identidade, domine ferramentas para participar na sociedade, assuma um compromisso social, viva algum tipo de transcendência e se abra para crescer indefinidamente. Esta proposta não visa a diminuir o leque de trabalho e de estudos, mas a quebrar limites e a abrir horizontes incomensuráveis. (Esta reflexão está compacta demais: voltarei para uma análise).

6.     Repito: as disciplinas são importantes para especializar; os cursos superiores não podem trabalhar transdisciplinarmente porque as disciplinas são necessárias para o aprofundamento necessário. Sobretudo a partir do século dezoito as disciplinas passam a ter importância cada vez maior porque cada ser humano não podia mais dominar o conhecimento que se avolumava rapidamente. O modelo de escola atual, esquematizado naquele século, nasce disciplinar porque – parecia – que o conhecimento repartido em fatias poderia ser dominado por todos. O desenvolvimento infindável do conhecimento e as condições humanas após as duas grandes guerras inviabilizaram este modelo: as cabeças mais ilustradas, desde o último quartel do século passado, insistem no holismo, na necessidade de não limitar o ensino a algumas disciplinas e de alargar os horizontes do saber. Até a UNESCO sintetiza esta necessidade na proposta de “aprender a aprender, aprender a ser, aprender a fazer e aprender a conviver”. A escola, quando nela trabalham pessoas sensatas, debate-se entre realizar isto e cumprir as disciplinas obrigatórias (que, nos discursos, fora do que escrevem, as autoridades educacionais chamam de sugestões).

7.     Sigo comentando um pouco o que está no item 5. Há conteúdos disciplinares que serão necessários para a participação no campo do trabalho. Poderão ser cursos técnicos para os que já cursaram o ensino médio ou para os que o estão cursando. Podem ser cursos específicos para uma profissão determinada ou cursos mais amplos, que abranjam uma introdução geral a uma área de trabalho, para pessoas que, depois, buscarão um trabalho específico em empresa e aí se especializarão. Poderão, também, para estas pessoas, haver cursos rápidos, para uma preparação imediata a um trabalho de menor exigência. Senai, Senac, Senar... já fazem isto, mas a oferta ainda é pequena e a agilidade para adequação rápida ao mercado ainda não existe. É bom acentuar duas coisas a respeito: não se pode fazer diferença, para entrada no ensino superior, entre estes alunos e os que seguirem um ensino médio comum (tratarei disto ao falar no vestibular); tudo isto só faz sentido para um país em desenvolvimento no qual o ideal de todos cursarem, pelo menos, o ensino básico e os que quiserem ingressar no ensino superior terem a possibilidade, não pode, ainda, ser realizado.

8.     Outros conteúdos disciplinares podem ser necessários – neste caso, para todos os alunos – como base para o domínio de ferramentas para a participação na sociedade. Vale escrever isto porque o modelo transdisciplinar não deve ser usado para que todos os alunos vivam a mesma hierarquia de valores, desenvolvam as mesmas habilidades e dominem os mesmos conhecimentos: os trabalhos escolares em que se estudam temas, não disciplinas, na forma de projetos de estudo e de pesquisa, abrem perspectivas para que cada um vá construindo sua identidade com um aproveitamento próprio, talvez bem diferente ao dos colegas com quem participa. Surgem duas questões importantes, talvez as mais difíceis numa proposta transdisciplinar de currículo: pode alguém aprender coisas básicas, necessárias, sem que outra pessoa lhas ensine diretamente? Quais são as coisas básicas sem as quais seria difícil uma vida humana digna? Parece difícil responder a primeira destas questões (eu não tenho clareza disso) porque não temos experiências de escolas realmente transdisciplinares. Mas sabemos que uma criança, pela vivência, aprende coisas difíceis, sem intervenção “escolar” dos adultos; veja-se, por exemplo, aprender a andar e a falar. A outra é de fácil resposta, embora exija tempo, paciência, sabedoria e humildade. Oxalá as autoridades organizassem grupo para este trabalho e parassem de emitir resoluções, pareceres, diretrizes... tudo cheio de conjugações de ideias que mais atrapalham do que ajudam. No próximo número 9. darei alguns exemplos.

9.     Existem conteúdos (às vezes disciplinares) que são ferramentas para participar na sociedade. Por exemplo: as operações aritméticas básicas; a leitura e a escrita; os principais movimentos da História... Quero citar outros exemplos. Mas antes tenho que explicitar um fundamento para uma melhor compreensão. Escolas são instituições para a reprodução dos valores, das habilidades e dos conhecimentos que a sociedade julga necessários em determinado momento. Neste sentido, escolas são extensões da família, para fazerem, com mais conhecimento, a tarefa que a família faz espontaneamente. Quando a criança vem ao mundo precisa ser incluída num mundo humano, numa cultura; sem isto, ela não caminhará rumo à plenitude humana. Para ser integrada na sociedade, para sobreviver nela ou, pelo menos, para não marginalizar-se, precisa de educação – da família, da escola e de outras entidades. Diante desta tarefa, a escola reproduz o que está na sociedade para que a criança se acostume ao que a sociedade vai lhe cobrar. Se a sociedade for justa, enriquecedora, a escola gerará justiça e riqueza interior. Se for competitiva, com grupos fortes de dominação, valorizando o dinheiro acima de tudo, sem preocupação com a solidariedade... como hoje acontece, a escola reproduzirá isto. Houve épocas em que uma sociedade estática, com hierarquia de valores estabelecida e aceita quase universalmente, eximia a escola de pensar: ela só precisava reproduzir fielmente. Agora, tudo mudou...

10.  Vejam que, para a escola, a única possibilidade é reproduzir o que está na sociedade. Estou falando de escola básica, cujo papel é integrar crianças e adolescentes na sociedade e na cultura. Qualquer escola, neste nível, é reprodutora. Não adianta inventar coisas como produção do conhecimento ou construtivismo: a escola reproduz. É claro, também, que não se trata só de conhecimento; a escola reproduz habilidades consideradas necessárias e, sobretudo, valores, costumes, conceitos e preconceitos, ideias e práticas; mesmo que muitos digam que a escola só deve interessar-se pelo saber. Contudo – este é o ponto crucial – ela pode ser conservadora ou transformadora. Naturalmente, ela é conservadora, porque, sem pensar, deixa-se dominar pelo senso comum, pelas determinações autoritárias e pelo “saber” social; de maneira mais direta e mais clara, pode-se dizer: espontaneamente, ela reproduz o que é imposto por alguma ideologia dominante. Mas ela pode ser transformadora porque, na sociedade, nos nossos tempos, há pensamentos divergentes, ideologias diversas e propostas claras para uma nova civilização. Sempre reproduzindo o que já está na cultura, embora em menor quantidade, por meio de um pensamento sobre uma nova sociedade e uma consequente nova educação, tudo isto integrado a uma prática concreta, esclarecida por um lúcido e adequado processo de planejamento, construir-se-á uma escola libertadora de processos, ideologias e pensamentos presos a um fazer que se consome em si mesmo. (Os exemplos do que é necessário como saber de todos fica para a próxima intervenção).